quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Capítulo III

A poucos quilômetros da Delegacia, em um apartamento modesto, mas confortável, o rádio toca canções românticas, todas instrumentais, típicas da FM mais tradicional da região, aquela ouvida nos escritórios e nas esperas telefônicas. O som da máquina de costura se une à orquestra, obedecendo o tempo e o ritmo a cada movimento que aciona o pedal. O calor torna o trabalho ainda mais exaustivo, com a seda pura escorregando debaixo da agulha ou grudando no suor dos dedos. É preciso terminar a tempo o vestido para o Baile de Gala, marcado para dali a uma semana. Desde que foi à uma festa usando um vestido igual à de outra convidada resolveu costurar ela mesma seus trajes, até mesmo os informais.

Susan ainda é uma mulher bonita, com profundos olhos azuis e um rosto emoldurado por madeixas louras por natureza. Sua figura é de um colorido estonteante, principalmente quando suas faces ficam rosadas por causa do nervosismo, excitação ou vergonha. Diante de seu nariz imponente, dezenas de homens depositaram suas armas mas, mais por orgulho que por devoção ou amor, seu coração permanece fiel à paixão de sua juventude. Ela já foi uma advogada muito bem sucedida, tanto que a remuneração de suas últimas causas lhe rendeu o suficiente para fazer alguns investimentos no setor imobiliário, garantindo uma renda que lhe permite para tirar uns dois anos de férias. Não que quisesse exatamente descansar. Susan tem uma obsessão, um objetivo a alcançar e, para poder dedicar-se exclusivamente aos seus planos, agiu de forma calculada para ter como se sustentar sem exercer a sua profissão.

Ela arremata a costura e, no final do corredor do apartamento, olha o relógio da cozinha. Faltam cinco para as seis da tarde, mas o horário de verão mantém ainda o sol alto. Da janela do quarto de costura ela contempla o verde sobre os morros do Garcia. Uma cicatriz na mata está sempre ali, presente, relembrando a tragédia de novembro de 2008, quando a terra encharcada por mais de 3 meses de chuvas revolveu o solo, desbarrancou as encostas e desmoronou centenas de casas, mudando a geografia da cidade. Susan perdeu os tios e a prima que moravam em uma das localidades mais atingidas pelos deslizamentos de terra naquele mês maldito, o que abalou seu espírito e suas crenças.

Afastou a lembrança triste da sua mente e foi escolher a roupa que usaria no jantar com Dieter, um velho amigo que exercia o cargo de presidente da mais importante associação empresarial da cidade. Susan era uma espécie de conselheira de Dieter, mas que isso ficasse em segredo. A pior coisa para ele seria admitir que se aconselhava com uma mulher. Susan sorriu ao lembrar do amigo, sempre preocupado em provar sua masculinidade. Por isso mesmo escolheu um vestido vermelho, de corte discreto para equilibrar a extravagância da cor, mas nem por isso antiquado, digamos que, comportado. Colocou o vestido em frente ao corpo e se olhou no espelho balançando seus cachos loiros sobre o tecido, imaginando os galanteios que receberia do amigo.

Ao sair do banho, ligou o televisor para assistir o telejornal que começava às sete e quinze. Enquanto isso secou os cabelos e, quando desligou o secador, ouviu a manchete: mulher é encontrada morta dentro de casa no bairro da Velha. A polícia investiga a hipótese de assassinato!
Sentou para assistir a reportagem, sabendo que a investigação deveria estar à cargo de Gert. A matéria mostrava a casa antiga onde a mulher foi encontrada, mas a polícia não permitiu cenas dentro da casa. A repórter contou os fatos que envolviam o caso e passou a palavra ao responsável pelo caso, Gert Schroeder, com a pergunta:
- Por que a polícia suspeita de assassinato?
- Ainda é apenas uma suspeita – frisou o investigador – o médico legista apresentou agora à tarde o resultado do exame para definir a causa da morte e essa causa é que nos faz pensar em assassinato. Bertha Müller morreu por uma intoxicação cujo agente nos é desconhecido. Nosso trabalho agora é investigar onde essa substância pode ser encontrada para saber se a morte pode ter sido casual ou se foi premeditada.

Susan gostou de rever o velho amigo de faculdade. Costumavam sair juntos às sextas-feiras para dançar. Decidiu telefonar depois que o caso estivesse esclarecido. Ficaria atenta aos telejornais para saber quando Gert estaria menos ocupado.

Fez uma maquiagem bem natural, borrifou o Coco Mademoiselle na pele, colocou o colar e os brincos de pérolas e telefonou do celular para Dieter:
- Estou pronta. Pode passar quando quiser.
- Você é perfeita! Sempre pontual, minha amiga. Dentro de 15 minutos estarei aí. Até mais.
- Até mais.

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