sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Conto de um Apaixonado por Perfumes - II

Capítulo II

Era um típico dia de verão no Vale do Itajaí com os termômetros marcando quase 40 graus. O calor não seria insuportável se a umidade caísse abaixo dos 40 por cento. Mas em Blumenau não é assim, e o resultado é que todos andam pela rua, literalmente, derretendo. Uma desgraça para o nariz de Gert que, nesse caso, poderia ser menos apurado. Até daqueles mais asseados ele consegue sentir o cheiro acre de suor misturado à desodorante vencido (porque num clima desses sempre vence), loção pós-barba, cremes e uma infinidade de possibilidades de notas transformadas em perfumes.

Ele se vê obrigado a rir quando passa por uma base de aluguel de bicicletas. Nem mesmo os loucos da ala de psiquiatria do Hospital Santa Catarina se atreveriam a pedalar àquela temperatura. E se alguém o fizesse, iria pra camisa de força – mais uma dessas jogadas de marketing que deveriam fortalecer o prefeito, mas que acabam sendo motivo de chacota entre a população dos bairros.

Na Delegacia Regional, Gert senta para escrever o relatório de sua inspeção na casa de Bertha Müller. O ar condicionado, programado para 22 graus, vai esfriando sua mente, enquanto digita e reconstrói as circunstâncias da morte daquela mulher que, sem entender porque, mexeu em algumas sensações adormecidas desde a sua infância. A julgar pela idade que aparentava Bertha a morte deveria ter sido natural, mas a causa ainda não havia sido diagnosticada pelo médico legista. Alguma coisa levou Gert a solicitar um exame mais profundo, um exame a mais que pudesse determinar a presença de alguma substância nociva no sangue da defunta. Tomou as providências mecanicamente e, interiormente, torcendo pra que o Delegado não o interpelasse por tamanha sandice - “claro que uma senhora que morreu sozinha não necessitaria de tantos requintes para ser assassinada”.

Ele terminou o relatório e fez questão de anotar que o chá, preparado na saleta onde Bertha foi encontrada morta, não havia sido servido. Uma informação que, ele tinha esperança, tiraria de sua cabeça a suspeita de alguma droga servida no líquido do bule com o intuito de matá-la. Contente com a própria perspicácia, olhou pela janela o sol abrasador do meio dia e imaginou quantos passos até chegar ao ar condicionado do carro, um Honda Civic novinho, comprado durante a redução do IPI, em 60 parcelas fixas, coisa só possível no Brasil. Já sentado no banco do motorista, de onde realmente sentia-se poderoso, tentou não pensar em como estaria o carro daqui a 5 anos. Rumou direto para o shopping, onde continuaria num ambiente climatizado e o único lugar da cidade onde se encontraria uma vaga para estacionar.

Fez uma refeição frugal para justificar o luxo de uma Eisenbahn gelada e encontrou os amigos no cafezinho. Gert não acreditava no que ouvia; dia após dia o assunto era sobre os novos empreendimentos imobiliários na Alameda, as festas no Schützenverein e as derrapadas do português do presidente, Lula, o primeiro dirigente brasileiro a não ser criticado pela política econômica, mas sim por seus erros crassos de língua portuguesa. E, claro, a mesma piadinha de sempre sobre a sua orientação sexual. Gert estava entre os confortáveis 30 e os perigosos 40 para um homem solteiro. Chegar nos “enta” sem formar uma família era para ele a determinação de um fracasso, a prova cabal de que não era uma pessoa socialmente adequada. Às piadas dos amigos ele sempre respondia: - apenas nunca encontrei uma mulher usando o perfume “certo”, ao que os ouvintes respondiam com sonoras gargalhadas e balançadinhas de cabeça.

Gert já amara duas vezes na vida, uma colega de escola, de família luterana tradicionalíssima e uma empresária obstinada. Especulava sobre como poderia ter amado dois seres tão diferentes, um tão dependente das convenções sociais que preferiu um casamento estável e outro, tão independente a ponto de abrir mão de um casamento por sua profissão. Ellen, a empresária do ramo de moda, aceitou uma oferta para estudar em Milão, deixando pra trás um Gert em profunda crise existencial. Já não sabia mais o que as mulheres esperam de um homem e decidiu ser ele mesmo sem se deixar abalar pelas constantes cobranças de um comportamento sexual agressivo.

Chegou de volta à sua mesa na Delegacia e o telefone tocou: - O Dr. Neumann deseja vê-lo em sua sala - anunciou a telefonista com a voz esganiçada. Erich Neumannn era o Delegado Regional, um dos melhores policiais do estado mas que só foi nomeado por indicação política. De todos que já haviam passado pela Delegacia este era o único que havia conquistado o respeito de Gert.

Anunciou sua chegada com três batidinhas de quem já é íntimo e foi abrindo a porta. Neumann examinava o seu relatório e comparava com outros documentos enviados pela perícia. Levantou os olhos, convidou Gert a se sentar e fez a pergunta que já era esperada:

- Vi que você pediu um exame toxicológico de Bertha Müller...
- Exatamente – disse Gert.
- Posso saber por que?
- Achei que seria importante para descartamos qualquer hipótese de assassinato, já que o corpo não apresentava ferimentos e nem sinais de resistência.
- Muito bem – disse o delegado – parabéns pela iniciativa. Parece que a mulher morreu mesmo de uma intoxicação.

Diante desta última frase, Gert sentiu uma alegria que não sabia explicar. Talvez fosse o sentimento de que sua intuição era forte. O Delegado ofereceu à ele os papéis sobre à sua mesa e pediu que lesse com cuidado o prontuário médico de Bertha Müller e os dados preliminares do médico legista.
Quando já ia saindo ouviu a última instrução:
- Vá novamente à casa dela agora à tarde. Quero que reviste todos os cômodos e tente descobrir se há empregados. Preste atenção até aos detalhes mais insignificantes. Se essa mulher foi assassinada, será muito difícil descobrir o que causou sua morte. Os sintomas são de substâncias raras. Talvez nunca consigamos decifrar a estrutura desse veneno. Tenha cuidado e boa sorte!

O Conto de um Apaixonado por Perfumes

Capítulo I

A casa é uma das mais antigas da região, construída na segunda metade do século XIX, no estilo enxaimel e grande o suficiente para abrigar várias gerações de uma só família. Depois do boom imobiliário, que reduziu as moradias à pombais, a casa pode mesmo ser considerada uma mansão, não tanto pela construção, mas pela área que abrange o belo jardim.


A velha campainha toca insistente mas, não há sinal de vida dentro da casa. O inspetor força a maçaneta e descobre a porta aberta com um rangido que denuncia a falta de óleo nas dobradiças. No vestíbulo, o ar é carregado de uma mistura de aromas. Gert, o inspetor, tenta decifrar os aromas com seu olfato apurado. Ele aspira profundamente e pensa: madeira mofada e flores mortas em água pútrida. Do salão principal emergem alguns aromas diferentes, ele caminha em direção à ela enquanto sua mente é assaltada pela lembrança de sua mãe, morta prematuramente em uma epidemia de tifo após uma das enchentes do Itajaí-açu. É isso, o mesmo aroma dos produtos de toucador que sua mãe usava para colorir os lábios e a face.

O salão é ornado por uma variedade de relíquias de família. Nas paredes, retratos de pessoas com rostos familiares, descendentes da mesma leva de imigrantes alemães que chegaram ao sul do Brasil em 1850. Poderiam ser todos seus parentes – pensa Gert. Ele constata que, no vaso, as flores não foram trocadas, pendem sufocadas pelo calor de novembro.

Em uma saleta contígua o chá está preparado, como se alguém o esperasse para ser servido. Em frente à mesinha uma figura imponente se destaca da mobília, sentada de forma ereta e impecavelmente vestida. Apenas a posição da cabeça não condiz com o cenário, pendida sobre o peito como se tirasse um cochilo. Gert se aproxima para tomar sua pulsação. Os olhos de Bertha estão abertos, não como quem rejeita a morte, mas como quem se acostumou a encarar os infortúnios da vida. Na cadeira de onde conduziu os destinos da família resta apenas o espectro de uma mulher que escolheu não despertar o amor, que resistiu às lágrimas e ao sentimento que a impediriam de tomar decisões.

O telefone ainda está fora do gancho. Diante do mal súbito, Bertha trocou os números e, em vez de ligar para o médico, chamou a polícia. Por ironia do destino, coube a Gert atender o chamado. Uma coincidência que Bertha não pode testemunhar e cuja história ninguém sobrou pra contar. Avó e neto se encontram em um dos acasos da morte sem conhecerem o mistério de suas vidas. A mãe de Gert escondera e negara sua origem depois de ser rejeitada pela família ao escolher amar um homem católico.

Melancólico diante desse quadro, Gert aspira o aroma de baunilha que envolve o corpo de Bertha. Na mesinha ao lado do telefone repousa um frasco de perfume – Guerlain – Jardins de Bagatelle. Gert segura o frasco com os olhos e fechados e pensa: “este é o cheiro que gostaria que tivesse a minha avó, se uma avó eu tivesse tido!”
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