sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Conto de um Apaixonado por Perfumes

Capítulo I

A casa é uma das mais antigas da região, construída na segunda metade do século XIX, no estilo enxaimel e grande o suficiente para abrigar várias gerações de uma só família. Depois do boom imobiliário, que reduziu as moradias à pombais, a casa pode mesmo ser considerada uma mansão, não tanto pela construção, mas pela área que abrange o belo jardim.


A velha campainha toca insistente mas, não há sinal de vida dentro da casa. O inspetor força a maçaneta e descobre a porta aberta com um rangido que denuncia a falta de óleo nas dobradiças. No vestíbulo, o ar é carregado de uma mistura de aromas. Gert, o inspetor, tenta decifrar os aromas com seu olfato apurado. Ele aspira profundamente e pensa: madeira mofada e flores mortas em água pútrida. Do salão principal emergem alguns aromas diferentes, ele caminha em direção à ela enquanto sua mente é assaltada pela lembrança de sua mãe, morta prematuramente em uma epidemia de tifo após uma das enchentes do Itajaí-açu. É isso, o mesmo aroma dos produtos de toucador que sua mãe usava para colorir os lábios e a face.

O salão é ornado por uma variedade de relíquias de família. Nas paredes, retratos de pessoas com rostos familiares, descendentes da mesma leva de imigrantes alemães que chegaram ao sul do Brasil em 1850. Poderiam ser todos seus parentes – pensa Gert. Ele constata que, no vaso, as flores não foram trocadas, pendem sufocadas pelo calor de novembro.

Em uma saleta contígua o chá está preparado, como se alguém o esperasse para ser servido. Em frente à mesinha uma figura imponente se destaca da mobília, sentada de forma ereta e impecavelmente vestida. Apenas a posição da cabeça não condiz com o cenário, pendida sobre o peito como se tirasse um cochilo. Gert se aproxima para tomar sua pulsação. Os olhos de Bertha estão abertos, não como quem rejeita a morte, mas como quem se acostumou a encarar os infortúnios da vida. Na cadeira de onde conduziu os destinos da família resta apenas o espectro de uma mulher que escolheu não despertar o amor, que resistiu às lágrimas e ao sentimento que a impediriam de tomar decisões.

O telefone ainda está fora do gancho. Diante do mal súbito, Bertha trocou os números e, em vez de ligar para o médico, chamou a polícia. Por ironia do destino, coube a Gert atender o chamado. Uma coincidência que Bertha não pode testemunhar e cuja história ninguém sobrou pra contar. Avó e neto se encontram em um dos acasos da morte sem conhecerem o mistério de suas vidas. A mãe de Gert escondera e negara sua origem depois de ser rejeitada pela família ao escolher amar um homem católico.

Melancólico diante desse quadro, Gert aspira o aroma de baunilha que envolve o corpo de Bertha. Na mesinha ao lado do telefone repousa um frasco de perfume – Guerlain – Jardins de Bagatelle. Gert segura o frasco com os olhos e fechados e pensa: “este é o cheiro que gostaria que tivesse a minha avó, se uma avó eu tivesse tido!”

Um comentário:

  1. Que delícia de conto, Miriam.
    Aguardarei os próximos capítulos! rs

    Ahh, voltei com o meu blog, já te linkei lá.
    Beeijo

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